sexta-feira, 5 de setembro de 2014

CONVERSA DE ADULTO COM O MEU FILHO…

Numa bela tarde de inverno em Lisboa cheguei cedo a casa, mas estafado do trabalho, tomei banho e sentei-me no cadeirão a pesquisar os canais para saber as noticias do mundo. O meu filho de quinze anos também tinha chegado de escola e meteu a conversa comigo.

- Pai, porque que dizes sempre que o PAIGC libertou o nosso país há 40 anos, mas depois ouço-te também a dizer que mataram muita gente na Guiné? Tens medo de voltar para lá, pai?

A minha resposta ao meu filho foi a seguinte: - Filho, posso dizer que na verdade tenho medo, mas o meu medo não é de ser assassinado ou morto pela minha maneira de pensar. Porque a minha maneira de ver o mundo só a morte ma pode tirar. O meu maior receio é a falta de trabalho para os sustentar, a escola para vos educar, a saúde para vos tratar. Eu decidi sair para vir a Europa para arranjar trabalho, mas aqui não é a minha terra. Hoje sou um bom pedreiro. O meu umbigo foi enterrado na Guiné, em Binar. É verdade, meu filho, que o PAIGC é um saco cheio de “surpresas”. 

Está lá tudo, gente com virtudes e assassinos e egoístas! No tempo da luta contra os tugas na Guiné, eu não tinha idade, o meu pai contava-me que todos eramos a favor do PAIGC, mas aqueles que fossem a tropa dos tugas, muitos, colaboravam com os nossos, de uma forma secreta. O inimigo era comum, os tugas. 

A minha tia, por exemplo era casada com um senhor que era muito temível em Safim, mas como ela era vendedeira de carvão vegetal e esteira, fazia ligação entre os guerrilheiros e os que estavam na clandestinidade em Bissau. Trazia e levava mensagens para os guerrilheiros. O meu pai contou-me que levava em criança comida e fazia recados para os guerrilheiros em Tchok-mon, mas quando aderiu a milícia dos tugas nunca mostrou aos tugas o caminho para o acampamento dos combatentes do PAIGC.

- Ah é, a tia Ndingue que estava na foto com a tua mãe fazia isso?
Fazia, filho. Ela era muito corajosa. Ia ao mato, alugava camião e trazia mercadoria para vender em Bissau. Como estava a dizer, depois da independência esse espirito de solidariedade e de entreajuda acabou. 

Aliás, antes ainda, com o assassinato de Amilcar Cabral em Conacri, começou a matança. O meu pai contava-me que morreu muita gente inocente acusada de participação no assassinato do líder máximo. Dizem que a divergência que depois assistimos em Bissau, grande parte dela derivou-se desse momento negro da história do PAIGC. 

No princípio, era o tempo em que só havia o PAIGC, os outros partidos só surgiram nos princípios dos anos noventa com o multipartidarismo. 

O PAIGC fazia o que lhe apetecia. As Forças Armadas era braço armado do partido, pelo que podiam alcançam quem eles quisesses, fosse ele opositor ou marido cuja mulher o chefe simplesmente cobiçava, etc.  Fizeram tanto isso que até passaram a matar uns aos outro. Lembras-te que te falei uma vez do caso 17 de Outubro?
- Sim, pai, lembro-me. Até disseste que mataram um grande advogado, que Nino Vieira tinha convidado em Lisboa para trabalhar na Guiné…

- Sim, o nome dele era Viriato Pã. Não foi só esse, mandou prender e matar muitos oficiais das Forças Armadas que asseguraram a nossa luta nas matas pela libertação. Nino Vieira prendeu e matou inclusivamente gente que o libertou da prisão em Catió. Depois a matança era dirigida contra um grupo étnico, os balantas. A partir daí, meu filho, tudo se mudou. Não te falei, havia também um período em que não se podia falar contra Unidade de Guiné e Cabo Verde, o tempo de Luís Cabral. 

Quem falasse contra os cabo-verdianos era considerado opositor e podia ser preso e morto.
- Tanta coisa, pai…
- É verdade. O povo da Guiné-Bissau sofreu muito e continua a sofrer com os políticos do PAIGC. 

Depois da morte de Cabral, foi a debandada total. Parecia ter-se libertado os toiros do curral. Cada político com a sua agenda pessoal. Dizem todos unidos, mas cada um é lobo do outro. O que acontece hoje, é que os políticos perderam o controlo das Forças Armadas. Já não é o braço Armado de ninguém, mas de todo o povo. Por isso, aqueles que hoje ainda, com a sua agenda querem controlá-las é que as injuriam. É fácil de ver filho, onde está o poder do dinheiro, se é nos militares ou nos políticos.

- É verdade, pai, disseste-me uma vez que os antigos combatentes viraram moços de recado e empurravam carrinhos de compra no mercado de Bandim, que os graduados carregavam nos seus ombros sacos de arroz, que os quartéis eram uma autêntica pocilga, que não tinha boa comida, ligaduras pensos, coisas assim…

- E isso, filho. Nesse partido parece que não existe mais nacionalistas e patriotas. O PAIGC em si, também não parece um partido nacionalista. O que pose esperam de um partido que junta dois países num só. Tem lá gente de todo tipo. Gente que pensa como cabo-verdianos, gente que têm nojo das etnias, gente que estão lá que vêm tudo que seja oposição é tribalista. Dentro do PAIGC existem, filho, por incrível que pareça, caminhos antagónico. Há inclusive amigos jurados de morte.

- Pai, talvez a nossa sorte é que até agora não alcançaram as forças armadas para manipular e fazer a desgraça…
- Concluíste bem, meu filho! Podes ir para cama, já é muito tarde, amanhã continuamos a nossa conversa.           


“O PORTO DE ÁGUAS PROFUNDAS”…

Bem podia o Ministro dos Recursos Naturais, Daniel Gomes, poupar-nos com a sua verborreia sobre os “desejos de Cabral”, ao referir-se no dia 3 de Setembro, a importância do Porto de Buba para a sub-região, para a nossa economia e para a exploração de jazigos de bauxite de Boé. Pois, é desejo de todos nós guineenses! Em vez de o senhor Ministro, que até reconhecemos o patriotismo, mencionar  Cabral que há mais de 40 anos o PAIGC deitou no capim, o Ministro devia citar, isso sim, a nossa constituição e a lei sobre investimentos privados e estrangeiros no nosso país, a bem da transparência e da legalidade.

Nesta discussão, não queremos misturar o desejo do povo pela construção de um porto de águas profundas em Buba e exploração dos nossos jazigos minerais com a questão da legalidade ou não, dos “acordos”, dos “projetos” de exploração e de construção de jazigos, de portos e de caminho-de-ferro.

Ora, os “projetos” que foram abandonados devido ao golpe de Estado de 12 de Abril de 2012, tiveram uma história, que vamos tentar abordar aqui de forma mais breve possível. Dizem que em Março de 2007, o ex-Chefe de Estado guineense, Nino Vieira, no lançamento da primeira pedra para a construção de uma ponte sobre rio Cacheu, em S. Vicente, terá manifestado o desejo de outros projetos que ficaram parados, nomeadamente a construção do porto de Buba e da estrada Quebo-Boké, devido à instabilidade política, pudessem ser materializados em tempo útil. Segundo a imprensa estrangeira, na ocasião, Nino Vieira terá destacado a particularidade do financiamento ter vindo de urna iniciativa de “solidariedade” por parte de Angola, em que até dizia “país irmão de história e de sangue”, com a participação de empresa brasileira e guineense, numa clara alusão a necessidade de valorização da cooperação Sul-Sul. Consta, portanto, que terá sido, a partir desse momento (Setembro de 2007) que a empresa angolana “Bauxite Angola” - pioneira em Angola na prospeção e extração de bauxite, constituída por uma parceria de capitais públicos e privados angolanos e estrangeiros – encontrou os fundamentos que explicam o fato de ter sido concedida os direitos de prospeção, exploração e de processamento do minério em questão antes da sua exportação, num prazo de 25 anos renováveis, sob a supervisão do Ministério dos Recursos Naturais e Ambiente da Guiné-Bissau. Explicam ainda que a coordenação para a execução das obras  era, inclusivamente, repartida em subsectores: o portuário a cargo da Aprebras (empresa brasileira); estrada de escoamento de produto desde Munhime a Buba seria executada pela empresa Arezici (empresa libanesa).

 Se assim fosse, vamos depois ver que em Maio de 2009 a Guiné-Bissau e Angola assinam um “acordo de exploração” conjunta do bauxite na região do de Boé. O acordo foi rubricado pelos senhores, Soares Sambú (Guiné-Bissau) e Higino Carneiro (Angola), respetivamente, Ministro dos Recursos Naturais e das Obras Públicas. O referido “acordo de exploração” também se chamava “projeto”. Talvez, por isso, o Ministro Sambú anunciou na altura que se iria criada uma “sociedade anónima” de capital comum. Como se pode ver, até aqui não existia empresa nenhuma com outorgada a explorar o bauxite. O Ministro Sambú informara também a imprensa que a “Bauxite Angola” concedeu ao governo guineense 13 milhões de dólares  (9,4 milhões de euros). Para quê? A anunciada “sociedade” seria, então, na visão do Ministro guineense, constituída por três acionistas, nomeadamente uma empresa pública guineense, com 10 por cento das ações, uma outra angolana, com 20 por cento, e a “Bauxite Angola”, com os restantes 70 por cento. Estimava-se que as reservas de jazidas de bauxite na região de Boé atingissem as 110 milhões de toneladas. As jazidas confirmadas tinham já sido classificadas em  “C1C2″, numa margem de sondagem de 100 metros por 100 e de 200 metros por 200

Em Outubro de 2010, o ex-Primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Carlos Gomes Júnior, na abertura da Semana de Negócios da CPLP, fez anúncio de que o país possuía “importantes reservas” do bauxite, fosfatos e petróleo e que contava com o sector privado local e dos países lusófonos para promover a economia. É preciso referir que o negócio, na perspetiva do ex-Primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, era reservado apenas aos empresários dos países da língua portuguesa. Aqui, a economia deixou de ser aberta ao mundo. A CEDEAO e a sub-região iria ser vista apenas como vantagem de mercado com cerca de 300 milhões de potenciais consumidores.

É escusado referir-se que, na Guiné-Bissau, são reconhecidas todas as formas de propriedade. O Estado, no seu Artigo 13.° da Constituição, pode dar por concessão às cooperativas e outras pessoas jurídicas, singulares ou coletivas, a exploração da propriedade estatal, desde que sirva o interesse geral e aumente as riquezas sociais. Na nossa terra, os recursos geológicos onde entrariam figuradas as riquezas minerais, não fazem parte do significado “Terra” que engloba solo e subsolo, propriedades do Estado. Resta, portanto, saber se esse “acordo de exploração” ou “projetos” já se transformaram em “Sociedade” como havia sido prometido? E se essa “Sociedade” foi a concurso público como manda a lei? Que entidades outorgaram, em nome do Estado, nos contratos administrativos de concessão mineira? José Mário Vaz, no seu discurso de tomada de posse como Presidente da República não disse “(…) iria estar atento e vigilante no que se refere ao flagelo do fenómeno da corrupção e sobretudo que chamaria ao meu gabinete todos os dossiers relacionados com o abate das árvores e exploração ilegal dos nossos recursos naturais a bem da nossa querida Guiné e das gerações vindouras.”?

O princípio da legalidade não começa e termina no “Retorno à Ordem Constitucional”, como nos querem inculcar. Em democracia, o princípio de legalidade, como alguma vez disse alguém, tem em vista “(…) alcançar um estado geral de confiança e certeza na ação dos titulares do poder, evitando-se assim a dúvida, a intranquilidade, a desconfiança e a suspeição, tão usuais onde o poder é absoluto, onde o governo se acha dotado de uma vontade pessoal soberana ou se reputa legibus solutus e onde, enfim, as regras de convivência não foram previamente elaboradas nem reconhecidas.”


Por Nababu Nadjinal
Situaçao dos graduados Guineenses em Cuba
                                                  
Em nome de todos os estudantes Guineenses recém graduados em diferentes especialidades em Tecnología da Saúde em Cuba, viemos por este meio a informar ao governo sobre a nossa situação de regreso a Guiné-Bissau, é o seguinte:
Os recém graduados no total de 18 estudantes levam mais de 2 meses sem ter posibilidade de regresar ao pais natal e enfrentam grandes dificuldades devido que a embaxada Guineense em Cuba é incapaz de resolver a nossa situação onde o Sr. Embaxador Abel Coelho Mendonça nunca se presenta no local de serviço, a maioria dos familiares resolveram comprar as passagens que resulta um outro problema de visto com a embaxada de Espanha em Cuba,neste sentido pedimos ajuda do governo da Guiné-Bissau especialmente do Ministério dos Negocios Extrangeiros que faça o possivel necessario.


1-Abimite Tomé Cá --------------------- Lic. Imaginología e Radiofísica Médica
2-Augusto Dionisio Sousa Almeida---Lic. Engenheiria Clínica (Electromedicina)
3-Babagale Camará----------------------Lic. Administração de Saude
4-Bimtchoga Cabi------------------------Lic. Nutrição
5-Bruno Manuel Mesa D’Almeida----Lic.Prótese Estomatológica
6-Elisangela Alfredo Da Silva----------Lic. Nutrição
7-Elizaida Correia------------------------Lic. Bioanálise Clínico
8-Floriano Omar-------------------------Lic. Administração de Saúde
9-Indira Justina dos Santos Néves---Lic. Gestão de Informação da Saúde
10-Leticia Caempa----------------------Lic. Prótese Estomatologica
11-Luciclí Sousa Cordeiro-------------Lic. Higiéne e Hepidemología
12-Québa Embaló----------------------Lic. Imagenología e Radiofísica Médica
13-Rasula Mariama do Carmo Sissé—Lic. Imagenología e Radiofísica Médica
14-Serifo Adulai Bá---------------------Lic. Engenheiria Clínica(Electromedicina)
15-Silénio
16-Suaila Mendonça------------------Medicina
17-Sundiata Iaia Seidi-----------------Lic. Bioanálise Clínico
18-Usumane Djáu----------------------Lic. Bioanálise Clínico


Responsavel: Graduados Guineeenses em Cuba.


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      Baldé Amadú
                Estudiante  Ingeniería Informática
                      Universidad  Pinar del Rio
         Calle Martí Final  # 270, Frente Hotel Pinar
                            Pinar del Rio,Cuba
                 Edificio 6B, 2da planta, Habitación 1
                      Celular  +53  53804383
                   amadu.balde21@gmail.com

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

«2ª PARTE» DE UMA GRANDE ENTREVISTA COM DR. JULIAO SOARES SOUSA: "VOCÊ, POR MAIS INTELIGENTE QUE SEJA, NÃO CONSEGUE CONVENCER NENHUM EMPRESÁRIO SÉRIO A INVESTIR NUM PAÍS ONDE NÃO HÁ ENERGIA ELÉCTRICA"

1-Conosaba: Atualmente, a influência da China em África é impressionante! A China está a fomentar profundos laços económicos, políticos e militares com a maioria dos 55 países da África, concorda? O que diz sobre abate de árvores (Pau de Sangue, transportado para China) de forma indiscriminada naGuiné-Bissau? 

Julião Soares Sousa: Sim, é verdade que a China é hoje um dos primeiros parceiros da África no seu processo de desenvolvimento. Tem os seus tentáculos em quase todos os países africanos e frequentemente encontramos funcionários chineses a trabalharem em diversos empreendimentos apoiados pela cooperação chinesa. Para entender essa presença chinesa em África seria necessário recuar até meados dos 50 do século passado ou examinar, sobretudo, a forma como se preparou ao longo de toda a década de 60 e 70 para chegar a situação confortável em que se encontra no nosso continente nos dias de hoje. Foi um trabalho paciente que merece ser destacado. Quando na primeira parte desta nossa entrevista referíamos à defesa dos interesses nacionais, o caso da China é paradigmático e pode servir de bom exemplo. Os países que não têm noção do que representam esses interesses nacionais não conseguem arregimentar forças para defender esses interesses. Porque não os reconhecem ou pura e simplesmente ignoram o que isso significa. Agora uma coisa é certa. Não há nada que nos obrigue, a conta do auxílio e da solidariedade que recebemos de qualquer país deste mundo, a devastar o nosso património natural, apenas por ganância e falta de carácter de alguns filhos da nossa terra. E aqui a culpa não é de ninguém, de nenhum país em particular. A culpa vai inteiramente para quem vende ou ordena a delapidação do nosso património público. A culpa só pode ser atribuída ao guineense ganancioso e que não olha a meios para atingir fins ilícitos. E quando mete dinheiro se for necessário até vendemos o que nos faz falta, deixamos de ser racionais. À custa desta cultura de irresponsabilidade no espaço de menos de 50 anos já perdemos uma importante mancha florestal do Oio e do Cantanhez. E estamos a falar de um país que se encontra numa zona crítica que já sofre a influência do Sahel. E com isso estamos a colocar em perigo o futuro do nosso país. É evidente que quando um país permite determinado tipo de abusos que partem dos seus próprios filhos acaba por pagar uma fatura elevada como nós estamos a pagar (e vamos continuar a pagar) nos próximos tempos. Também entristece muito ver o que se estava a passar em Varela. É evidente que tem havido um aproveitamento das nossas fragilidades como seres humanos e péssimos filhos da nossa terra. E mais! Sabem que nos podem comprar com dinheiro e outras benesses, o que não deixa de ser feio. Concordo inteiramente com as medidas que estão a ser tomadas pelas autoridades. Talvez os guineenses que se deixam comprar comecem a fletir na sua ação diabólica e devastadora. Temos de estar atentos e vigilantes na defesa do nosso património e do nosso país.

2-Conosaba: A União Africana (UA) foi fundada em 2002 e é a organização que sucedeu a Organização da Unidade Africana. Baseada no modelo da União Europeia (mas atualmente com atuação mais próxima à da Comunidade das Nações), ajuda na promoção da democracia, direitos humanos e desenvolvimento econômico na África, especialmente no aumento dos investimentos estrangeiros por meio do programa Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (NEPAD). Que tal da União Africana? Adotou novas estratégias para desenvolver a nossa África! É para confiar?
JS: Mal de nós se não confiássemos nas organizações que criamos. È claro que a OUA, desde a sua fundação, em Maio de 1963, passou por momentos conturbados. Não é fácil a uma organização do género funcionar no contexto em que emergiu como instituição charneira, que visava, entre outros objetivos utópicos e inalcançáveis para muitos naquele tempo, a unidade do continente. Mas devemos salientar ainda que esse contexto foi muito complexo. Havia países independentes, mas cuja independência foi negociada com as antigas potências colonizadoras sem necessidade de recurso à violência, e havia territórios, como era o caso de Angola, Moçambique e do nosso, que ainda se encontravam sob o jugo colonial e que tiveram que passar por uma longa e dolorosa guerra de libertação. Mesmo no quadro de países então independentes e dependentes havia grandes diferenças, fruto de diferentes tipos de colonização (colónias francesas, inglesas, portuguesas e espanholas) com tudo o que isso implicava em termos de diferentes tipos de mentalidades e especificidades. Isso fez com que ao longo de muito tempo a organização se ressentisse na hora de lograr consensos em determinadas matérias. Por isso mesmo a luta de libertação nas colónias portuguesas durou muitos anos por falta de solidariedade. Havia países que em lugar de defenderem os interesses dos territórios dependentes colocavam-se muitas vezes ao lado das potências colonizadoras. Foi também por isso (e por outras muitas razões) que a OUA nunca foi capaz de resolver verdadeiramente nenhum conflito em África. E houve muitos como sabe. Mas as coisas começaram a mudar em parte devido às profundas alterações que também se registaram nas últimas décadas no Mundo e em África. Creio que num futuro muito próximo a UA, sucedânea da OUA, será capaz de gerar mais consensos em várias matérias que interessam ao nosso continente. Só a criação doNEPAD e de outras instituições e a existência de consensos sobre o desenvolvimento africano devem constituir motivo para que todos os africanos se sintam hoje orgulhosos dessas transformações. A UA é uma organização que interessa a África e à paz mundial e deve, naturalmente, merecer todos os nossos incentivos para que continue a promover maior integração do continente de modo a acabar com a pobreza, a miséria e o sofrimento. Sente-se que cada vez mais a África está ganhar importância no plano internacional. Isso traz responsabilidades acrescidas à organização continental, mas também importantes desafios.

3-Conosaba: Frantz Fanon nasceu em 20 de Julho de 1925, em Forte-de-France, capital da colónia francesa de Martinica. Era negro e descendia de escravos deportados de África para Antilhas. Ele reivindicava para o Terceiro Mundo a possibilidade de se desenvolver independentemente das nações desenvolvidas (industrializadas), sejam elas capitalistas ou socialistas. É possível isso? Os países subdesenvolvidos se desenvolverem a conta própria? Como? 

JS: Como sabe, esta posição não é nova e ainda hoje é defendida por muitos intelectuais africanos e não africanos. Frantz Fanon, não foi propriamente um pensador qualquer. Empenhou-se denodadamente na libertação dos povos oprimidos, tendo influenciado decididamente muita gente da sua geração e ainda hoje recorrentemente regressamos às suas ideias e à leitura das suas obras mais emblemáticas que são sempre inspiradoras. Contudo, devemos contextualiza-las. É difícil, nos tempos que correm, a um país, a um continente desenvolver-se isolado dos restantes. Apesar de precisarem, no seu processo de desenvolvimento, de um impulso primordial que é o seu próprio esforço, a sua vontade interna, as suas próprias forças e sacrifício. São impulsos que ninguém de fora nos pode insuflar. Mas sabemos também que o Mundo se transformou num circuito fechado, numa aldeia global que, involuntariamente, gera solidariedades e, por (muitas) vezes, dependências. Por isso tenho dúvidas de que algum país se possa desenvolver contando ainda assim apenas com a sua vontade interna, isolado do resto do mundo e das nações mais industrializadas do globo. Os países africanos (e o nosso em particular) precisam de transferência de tecnologia. Precisam de melhorar as dinâmicas do funcionamento das instituições de ensino a vários níveis para que isso tenha reflexos imediatos e decisivos na formação de quadros e precisam sobretudo de reforçar os seus desempenhos macroeconómicos. E isso simplesmente é irrealizável isolado. 

4-Conosaba: É óbvio que estou a falar da escravatura! Os colonizadores e os Europeus devem pagar em dinheiro aos países africanos por escravidão? Neste caso, na sua opinião, Portugal deve pagar bem a Guiné-Bissau?
JS:Se assim fosse não seria possível quantificar esse grande equívoco da história. O que lhe quero dizer para responder a essa sua pergunta provocatória é que para além da liberdade e da própria vida nada é mais importante. Não há dinheiro que pague a redução a escravatura de um ser humano. A escravatura foi um erro crasso da história da humanidade como o foi também o holocausto, o genocídio no Ruanda, a mortandade que se tem experimentado em muitos países africanos (até mesmo no nosso). A escravatura teve consequências que todos conhecemos. O importante nesta altura é ensinar as pessoas a evitarem os erros cometidos no passado. Mas, já agora é preciso situar as coisas para que elas sejam inteligíveis aos que nos vão ler. É que naquele tempo da escravatura também não havia nenhum país que se chamava Guiné-Bissau. Estamos a falar de uma extensão territorial que na realidade se chamava “Guiné” ou que tinha várias outras designações (Etiópia Menor, Beled Al Abid, etc) e onde o nosso país atual se situa. Portanto, Portugal teria de pagar a quem? Acho que ninguém tem de pagar nada a ninguém. O importante é que esses fenómenos que envergonharam a humanidade não mais se repitam. Mas há mais! Sabe que em África, antes mesmo da chegada dos europeus, havia escravatura. Havia gente que vendia ou permutava os seus prisioneiros de guerra. Mas, além destas guerras que eram uma importante (provavelmente a primordial) fonte de escravos havia também a chamada escravatura doméstica. Havia, como dizia anteriormente, gente que era vendida e permutada porque cometeram “crimes” (adultério, roubos, furtos, etc.), mães ou pais que vendiam os próprios filhos. Chegaram-nos relatos desumanos. Portanto, a guerra não era o único e exclusivo meio de obtenção de escravos e gerador de lucros para mercadores africanos e europeus. A grande diferença que a escravatura europeia veio introduzir nisso tudo é a retirada das pessoas das suas regiões e do seu meio ambiente natural, com tudo o que isso implicou em termos de destruturação das famílias, violência física e psicológica, racismo puro, etc., etc. Sim, porque numa determinada fase da história da humanidade as pessoas eram sujeitas à escravatura porque eram negras. O que me perturba é que ainda hoje no nosso meio há seres humanos, nossos irmãos, a sofrer todo o tipo de vexames, de escravatura, que trabalham no duro para não auferirem nenhum salário condigno que lhes permita viver com alguma dignidade junto das suas famílias. Mas há muita gente que fica contente explorando os seus próprios irmãos ou permitindo que os seus irmãos sejam explorados. Há muito boa gente a dormir um sono profundo diante do sofrimento dos seus irmãos. Essa é que é a realidade. Agora pergunto. Foi para isso que nós conquistamos as independências? Vale a pena por vezes olharmos para o nosso próprio umbigo antes de apontarmos o dedo a outros. Nós hoje admitimos coisas na nossa terra que ninguém aceitaria na sua terra. Devemos olhar às vezes para dentro de modo a libertar-nos dos complexos e preconceitos quando se trata de defender os nossos interesses. Conquistamos a independência a custa de sacrifícios muito grandes, mas para deixar os nossos povos na miséria, na escravidão. 

5-Conosaba: O arquipélago de Cabo Verde constituía há séculos um dos mais importantes entrepostos do tráfico negreiros: indivíduos capturados nas enseadas dos rios e na costa da Guiné eram trazidos até ali para serem embarcados em condições miseráveis em direção à América e à Europa, onde faziam todo o tipo de serviços pesados e desprezíveis. Gente levada de África, nomeadamente da Guiné, foi colocada em Cabo Verde, como escrava. Os cabo-verdianos são nossos irmãos de sangue, concorda com essa afirmação? Como está hoje a relação Guiné e Cabo verde? 

JS: Bom, uma vez que insiste nesse ponto vamos primeiro esclarecer o seguinte. O fenómeno da escravatura foi muito complexo como dizia anteriormente. Provavelmente este não será até o lugar indicado para desenvolvermos melhor este tema. Todavia, é importante referir que quando as caravelas portuguesas chegaram ao rio Senegal (isso ocorre num contexto muito particular) uma série de conflitos assolavam não só os reinos do Senegal como também o próprio império do Mali em desagregação. Esses conflitos alimentaram o comércio de escravos para a península ibérica e depois para as américas. No fundo, a progressão das caravelas em direção ao sul do continente acompanharam em parte as guerras que aconteciam nos reinos e impérios do interior e da costa litorânea. Foi nesse contexto que Cabo Verde apareceu como repositório de escravos na sua rota para a Europa e para o chamado Novo Mundo. Quanto à pergunta se os cabo-verdianos são nossos irmãos eu sei que há ainda muita gente que torce o nariz quando se fala nisso, mas estão enganados. Acho que hoje ninguém tem dúvidas de que temos ligações históricas (desde a Bula Romanus Pontifex, do Papa Nicolau V, de1455) e consanguíneas também. Há muita gente em Cabo Verde que reconhece essa ligação com aÁfrica e especialmente com a Guiné. Da mesma forma que há muita gente na Guiné, por exemplo, que tem ligações consanguíneas com Cabo Verde. Mesmo muita gente. Uns sabem-no e outros nem por isso ou procuram ignorá-las. E vice-versa. Não houve só guineenses a irem para Cabo Verde. Também muitos cabo-verdianos vieram para a Guiné. Isso devia ser uma razão muito forte, gerador de outro tipo de ligações mais estreitas que tenho defendido para os dois países. O primeiro aliado da Guiné-Bissau emÁfrica e no Mundo deve ser Cabo Verde e o primeiro aliado de Cabo Verde em África e no Mundo dever ser a Guiné-Bissau, naturalmente. Ignorar isso é deturbar a realidade. São os únicos países que falam português e o crioulo no quadro da CEDEAO e nesse âmbito (e até noutros, do ponto de vista internacional) podem, apesar das suas naturais especificidades, concertar posições na defesa dos seus interesses essenciais. Estou em crer que a maturidade dos políticos cabo-verdianos e guineenses vai forçar certamente uma aliança de novo tipo em benefício dos dois povos. 

6-Conosaba: Se o Amílcar Cabral estivesse vivo...a Guiné-Bissau estaria hoje nesta situação? 

JS: É sempre muito difícil responder a perguntas desse género. A Guiné-Bissau já se tornou independente há 41 anos. Já teve tempo de se reencontrar com os caminhos do progresso e da elevação do nível de vida dos seus filhos. Penso que o que é mais relevante nesta altura é saber se seremos capazes de dar o salto em frente e corrigir. Todos os guineenses já se aperceberam que chegou a altura de virar a página. Amílcar Cabral cumpriu com a sua parte e deixou um legado que nunca soubemos aproveitar. Falta-nos a nós cumprir com a nossa parte inspirando-nos no seu legado. Temos agora mais uma oportunidade soberana para corrigir de modo a que o nosso país recupere o prestígio que já teve no mundo.

7-Conosaba: O Amílcar Lopes Cabral nasceu ou não, na Guiné-Bissau (Bafatá)? A quem questiona a nascença dele no nosso solo. Isso tem alguma relevância, se nasceu, ou não na Guiné?

JS: Eu sei que há pessoas que colocam esta questão porque têm uma grande curiosidade de conhecer a história de vida de Amílcar Cabral. Mas também há outras que insistem muito nessa temática por causa de motivações políticas. Argumentam que o assunto teria implicações jurídicas. A verdade é que também não apresentam provas para defenderem os seus argumentos. Nós ainda temos a mania do “fulano tal disse isto ou ouvi isto”, etc. E ficamos por ali. Às vezes até por pura maldade. A única prova documental que existe e que não deixa dúvidas nenhumas é de que nasceu. Portanto, é com isso que devemos operar. Mesmo que não tivesse nascido, por acaso já ouviu algum cubano a questionar a naturalidade de Che Guevara? O regresso recorrente a este tema só revela uma coisa: continuamos irresistivelmente a gastar muita energia que devíamos concentrar na melhoria dos desempenhos do nosso país, a tornar o nosso país respeitado no Mundo, a lutar com todas as nossas forças para mudar o curso sinuoso da história do nosso país, que, como sabe, desde que se tornou independente, tem sido uma história recheada de fracassos a todos os níveis: golpes de estado, assassinatos, de crueldade inimagináveis, de ódios e de traições, de pobreza e de miséria. Por causa da nossa desmobilização e preocupações com assuntos acessórios (como este) temos assistido impávidos a muitos abusos na nossa terra por parte de gente que em circunstâncias normais não deveriam ter a oportunidade para abusarem da bondade dos nossos povos. Em 40 anos fomos capazes de anular tudo o que foi conquistado com sacrifício por Amílcar Cabral e todos os seus correligionários. O que lhe digo é que por causa de motivações políticas, pura maldade ou até por caprichos pessoais não se pode anular o valor das pessoas que, pelos seus atos e pelos sacrifícios que fizeram em prol de outros, deveriam merecer no mínimo o nosso respeito e admiração. 
8-Conosaba: Numa das declarações (recentes) do novo Presidente da República, pediu o regresso imediato dos guineenses na diáspora à terra natal! Baseando nestes pedidos do novo Presidente,pensa um dia voltar a sua terra para contribuir?

JS: Sabe, muita gente passa ao lado do sofrimento dos outros, mas há nesta altura muitos compatriotas a sofrerem em Portugal e na Europa com a crise, de modo que é sempre bom ouvir declarações dessas. Pelo menos você sente que não é órfão ou apátrida como, infelizmente, muitos guineenses realmente sentem. Se passear por alguns bairros nos arredores de Lisboa e contactar os compatriotas que lá vivem consegue entender e contextualizar o apelo. Infelizmente são declarações que você não houve com muita frequência, vinda dos nossos políticos. Muitos ainda não se convenceram que só de mãos dadas e espírito de corpo é que lograremos combater todas as adversidades e levantar bem alto o nome do nosso país. O pior inimigo do nosso país é aquele que não quer reconhecer esse facto … E digo-lhe com toda a franqueza: o primeiro político a assumir esse desígnio, como um desígnio nacional (porque, efetivamente, o é) será de facto um herói. É verdade que há muita gente lá dentro com capacidade para levar aquele país para diante. Mas estou convencido (aliás este é a convicção de muitos amigos da Guiné-Bissau) de que se houver uma estreita aliança entre os que estão fora e aqueles que estão lá dentro, sem complexos, seriamos capazes de definitivamente arrancar aquele país da situação em que se encontra. E não seríamos o primeiro exemplo em África. Veja o caso de Cabo Verde. Sabe como é que chegou a situação atual? Através da valorização dos seus recursos humanos. Da valorização daqueles que estão dentro e daqueles que estão fora. Mesmo fora, muitos quadros guineenses poderão, se forem convocados, colaborar na afirmação do nosso país. E por vezes o que faz falta é defender os seus interesses dos nossos concidadãos nos países em que se encontrar para que sejam de facto respeitados. E isso tem faltado.

9-Conosaba: O Estado guineense atravessa sérias dificuldades financeiros (com um grave deficit orçamental) que vão sendo resolvidos com base no crédito externo e na solidariedade internacional, certo? Até quando o nosso país vai continuar nesta situação? Será que o novo governo guineense vai colmatar de vez esta situação precária? 

JS: Sabe, já tenho dito isso noutras circunstâncias. A Guiné-Bissau chegou a ter uma dívida externa astronómica. Foram os governos de Carlos Gomes Júnior que lograram o perdão dessa dívida, porque se não estaríamos hoje numa situação muito desconcertante. O que choca é que muita dessa dívida contraída ao longo de décadas não trouxe nenhum progresso para o nosso país. Não se vêm escolas, estradas, os hospitais continuam na mesma miséria, os funcionários estatais continuam a trabalhar e a passar vários meses sem salários…. Já viu ao ponto em que o nosso país chegou?Devo dizer-lhe que se o país vai contrair mais dívida, deve fazê-lo com critério, mas para servir os interesses do país e das populações. Seria um erro gravíssimo repetir os erros do passado. E estou a falar muito seriamente. Além do mais, a aposta do país deve ser no sentido de gerar receitas internas para reduzir substancialmente a dependência exterior, que acaba por trazer outro tipo de dependências e até de outros condicionamentos da nossa ação interna e externa como país soberano. A Guiné deve procurar libertar-se dessa dependência orçamental e de outras muitas dependências. Há muita coisa que nós poderíamos produzir internamente e assim evitar o desperdício de divisas e os elevados deficits na balança comercial. E isso só se consegue promovendo a agricultura e não com a monocultura do caju, com seriedade no trabalho e uma vontade férrea na defesa dos interesses do nosso país e das nossas populações, que depois de décadas de elevados sacrifícios já merecem o Olimpo. 

10-Conosaba: Como é possível um país desenvolver sem eletricidade? 

JS: Simplesmente não é possível. Sabe, quando há várias décadas ouvia um professor meu da cadeira de História da Educação a falar da importância da energia no processo de desenvolvimento pensava que essa perspetiva era muito redutora. Mas a verdade é que é mesmo assim. É claro que a isso haveria que associar outros aspetos: água corrente e mão-de-obra qualificada, etc. É uma grande falácia pedir aos empresários para investirem num país que não tem condições para um sério investimento. Você, por mais inteligente que seja, não consegue convencer nenhum empresário sério a investir num país onde não há energia elétrica e também mão-de-obra qualificada. E no mundo em que vivemos em que há cada vez mais concorrência ou você está preparado ou então fica para trás. Se você calculasse o grande desperdício de anos em que as coisas não funcionaram por falta de energia elétrica você estaria aqui a fazer contas durante vários dias. É que no mundo de hoje atrofia tudo. Acha normal um país que conquistou a sua independência há 40 anos ter passado os mesmos 40 anos da sua existência sem energia elétrica? Eu não acho normal. Agora pergunte a um empresário sério o que é que acha? É demasiado tempo perdido, meu caro. Um país não é propriamente um brinquedo.Há muita gente que pensa que é mas não é. Nós, para sermos um país respeitado no mundo e com capacidade de atrair investimento exterior (o que é absolutamente indispensável e urgente para colmatar os elevados índices de desemprego, sobretudo entre a população jovem) devemos fazer bem o trabalho de casa. Devemos ser capazes de criar condições internas (boa rede de estradas e de acessos até com os países vizinhos e ter um importante nó rodoviário e até ferroviário) e externas para isso.Temos que ser capazes de formar bem os nossos quadros, desde o ensino primário até ao superior e ter energia elétrica. Deveríamos criar condições para que as nossas embaixadas no exterior tivessem um papel importantíssimo em promover a imagem do nosso país e mostrar que criamos condições para o investimento muito sério. Mas, não é só mostrar as nossas eventuais potencialidades internas. É preciso mostrar as vantagens que um investimento na Guiné-Bissau poderia ter em termos do acesso aos mercados dos países da CEDEAO, etc, etc. Esse é um trabalho que é urgente fazer. 

11-Conosaba: José Eduardo dos Santos foi eleito primeiro presidente do Fórum dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, cuja cimeira constitutiva decorreu em Luanda. Tem algum comentário a fazer?

JS: Sim, com certeza. Devo saudar a retoma do Fórum dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, que marcou de facto também o regresso da Guiné-Bissau aos grandes fóruns internacionais. Depois da independência formal das antigas colónias portuguesas de África, esses países já se reuniam para concertarem posições, na mesma linha da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), que foi um organismo constituído em 1961, ainda no quadro das lutas de libertação nacional, com o objetivo de coordenar as suas atividades político-revolucionárias contra o colonialismo português. Bom, é escusado dizer que devido a problemas internos que alguns desses países enfrentaram, durante muito tempo, na era pós-colonial, os encontros e as reuniões acabaram suspensos e só agora retomados. Uma das principais razões, a meu ver, para a retoma das reuniões dos PALOP, doravante FORPALOP, tem a ver com a situação presente desses países que estão a tentar a todo o custo o take-off e encontrar novas fórmulas de articulação das suas políticas, numa altura em que todos pertencem a múltiplas organizações regionais e internacionais. Acho que isso é saudável para esses países e vai certamente trazer uma nova dinâmica não só no quadro das relações multilaterais e bilaterais, mas também a nível da CPLP. A dinamização dos PALOP pode vir a provocar, inclusivamente, uma grande reestruturação da CPLP ou de conduzi-lo ao um novo patamar. Os países agrupados no FORPALOP vão ganhar mais força a nível das organizações regionais e internacionais e no quadro da CPLP. Prevejo uma grande mudança a esse nível caso venham a optar pela concertação das suas posições a nível internacional e até a outros níveis: parcerias económicas e empresariais, etc, etc. Vamos esperar para ver, mas estou convencido de que o FORPALOP vai querer ocupar o lugar de importante ator na cena internacional. É agora um novo desafio que se coloca à própriaCPLP, onde certamente os países africanos reagrupados no Fórum vão certamente funcionar como um forte grupo de pressão. Tudo vai depender das vantagens políticas (e outras) que esses países quiserem subtrair desse Fórum.

 Fim
Feito por: Pate Cabral Djob






​
Historiador e investigador guineense, especialista em História Política da Guiné e de Cabo Verde, Prof. Doutor Julião Soares Sousa
Rezem, precisamos rezar.
Nós guineenses, estamos amarrados as correntes de Satanás.
Não existem Aleluias, Allá Akkubarúm, que nos possam livrar da maldição.

Os guineenses estão a pagar pelos pecados cometidos no nosso solo e não há salvação.
As almas injustiçadas clamam por justiça perante DEUS.

A aflição e o desespero dos inocentes que vivem no sofrimento e em silêncio, choram intensamente com o desejo de justiça e vingança.
O guineense tem que saber em como acalmar o coração dos que se sentem magôados e lesados.
Apenas existe um único culpado em tudo isto, em todo sofrimento, em toda a maldade  que estamos vivendo na nossa terra.
Esse culpado chama- se PAIGC.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CARO DOKA

Sei que não me conheces. Chamo-me Will Namob. Sou seguidor assíduo do teu nosso blog. 
Admiro muito a tua frontalidade e sobretudo o espirito patriótico que imprimes nos teus textos. Acontece que tenho seguido os acontecimentos destes últimos dias acerca do pedido de desculpa que apresentaste a senhora Adiatu Nandigna. É preciso ter muita dignidade para recuar da forma como o fizeste. Eu, na tua posição, não sei se faria o mesmo. 
Tenho a certeza que muito boa gente não o faria.  Mesmo esse grupo que fez a matança em Canchungo e nos outros lugares da nossa terra, vê-se que não foi capaz de pedir desculpa aos familiares pelos erros que cometeram contra inocentes. Esse grupo pertence uma instituição chamado PAIGC. 
Os militantes desse partido são herdeiros legítimos das virtudes e dos defeitos dessa mesma instituição de caris política. Continuaram a cometer erros, mas os seus militantes nunca tiveram a hombridade de se organizar e pedir desculpa a ti e a muita gente como tu, pelos danos causados. 
Está claro que eles nunca se arrependeram do mal que fizeram. Esse mal ou erro até tem nome: “ordens são ordens” e têm que ser cumpridas!  Muitos desses cordeirinhos de hoje estavam presentes e alguns até aplaudirem o crime que estava a ser perpetrado contra inocentes, acusados e fuzilados, sem direito a defesa. Ainda, por cima querem humilhar o Doka com pedido de desculpa. 
Mas, digo-te, no fundo, quem ficou mal na fotografia não é o Doka. É que não fizeste nada de mal. Eles querem prestígio e fama e tu só queres que te devolvam o teu pai que não chegaste a conhecer…  
Morning dearest one,
Se nao ha inconveniente, agradecia que editasses este meu pequeno
artigo no teu blog
Thanks.

Sall Ibraim

"
A minha frontalidade tem sido o meu inimigo número um, se é que de inimigo se trata. Por isso, não posso deixar de me identificar ao dirigir-me aquele que considero meu "queridíssimo sobrinho", filho de um grande filho da Guiné-Bissau, que não chegou de conhecer aquilo que toda a criança aspira - o amor paterno, que eu não traduziria por
"father's love" mas sim por "proximité entre papa et son digne héritier".


Considero-me irmão da Senhora referenciada e, sem ter que pedir a sua autorização, venho mais uma vez, com aliás o tenho feito noutras ocasiões, para felicitar o meu sobrinho Doka, por esse acto de coragem e de hombridade. Pabia na es terra djintis djagaci di mas. Por isso é que todo o cuidado é pouco, sobretudo quando nos pronunciamos sobre
algumas questões ou nos referimos aos nossos próximos. Isso que muita gente considera de pedido de desculpa, para mim, é também a manifestação de um acto de coragem e de realismo.


Sem entrar em análises sócio-antropológicas, mas o Doka sabe mais do que ninguém de que isso não faz parte da sua cultura e nem da cultura de nenhuma comunidade étnica Guineense. Isso é estranho à África (koba mal son pa koba), por isso é que reconheceu que devia recuar e pensar
melhor, porque a Senhora em questão, Adiato Nandigna, tem familiares, e alguns até, se calhar, são amigos ou mais do que amigos do Doka, pabia kila di Guinendadi.


Eu sou um leitor assíduo do blog do Doka. Tenho muitas vezes discordado com algumas abordagens, mas reconheço também que esteja a prestar um serviço de informação pública, o que é muito louvável, pabia nes terra djintis precisa tambi di ba ta lei, pa forma se cabeça. Leitura i suma comida, pa djintis suma nos, ita faci falta.


Doka, anos matchus di Ady no purdau, anos i iarmons. Lugar ki sta ba nel, i lugar di dicidi. Suma neto di Fula ku bu sedu, nna pidiu pa bu
pidi traduson di es provérbio Fula " Mo huli boné la mo taco". 

To be
or not to be, that's the question.


Na falal el aos, sempre que me encontro contigo, sempre que conversamos, sempre que leio o teu blog, fico envergonhado e sabes porquê? Porque esse crime aconteceu precisamente na terra onde nasci,
Canchungo, Babok, e eu na altura jovem empregado bancário, estava em Dakar, em missão do Banco Nacional.

  
Belive me, we all suffered and
are still suffering. Let's just pray for your dad's soul, our big
brother.
May God bless you!
Tonton Salla "


Obs:
Obrigado meu tio, obrigado.
Doka
RUMO A 11 DE ABRIL…
Parece anedótico, mas não, a empresa chama-se “Bauxite Angola”! Sim, na Guiné-Bissau, foi apelidada uma empresa estrangeira com este nome. Ela não é fictícia, existiu na realidade. Operou até de 12 de Abril de 2012. A “Bauxite Angola” traz-nos recordações de um período sombrio da governação na Guiné-Bissau. Época em que as concessões públicas não obedeciam critérios legais e transparentes. Refiro-me a governação “cadogista” que geria a coisa pública como se da sua empresa pessoal tratasse.
A “Bauxite Angola” foi menina dos olhos de Angola, a ponto de ser considerada para os angolanos, o móbil do golpe de Estado de 12 de Abril de 2012. O analista político angolano, Amilcar Xavier, entrevistado pela RFI, a 3 de Maio de 2013, considerava bauxite na Guiné-Bissau como um interesse estratégico de Angola. Dizia o analista que a sua exploração era como consagração da vitória do Estado angolano que conseguiu ganhar a vantagem no direito de concessão que as autoridades guineenses deram ao seu país em detrimento de outros países que igualmente tinham interesses, referindo-se concretamente os EUA, a França e a Nigéria. Xavier alegou ainda que, aos olhos de vários analistas angolanos, o interesse desses países pelo mineiro em causa, os terão levado a instigar os militares guineenses para que o golpe de Estado se consagrasse.
Ora, vira o disco, toca o mesmo! Agora, com o regresso à normalidade constitucional, a “Bauxite Angola” voltou mais petulante querendo “comprar”, das novas autoridades guineenses, o regresso aos tempos da velha senhora. Segundo foi noticiado, ontem, dia 2 de Setembro, a convite do Governo da Guiné-Bissau, o Ministro dos Recursos Naturais, Daniel Gomes, terá reunido com os representantes das empresas Bauxite Angola e GB do fosfato de Farim. Os representantes angolanos não podiam ser mais claros nos seus propósitos, enquanto o ministro, Daniel Gomes, dizia, à imprensa, que o fosfato e bauxite só serão explorados após a observância da avaliação de estudo do impacto ambiental e a viabilidade económica, procedimento que nunca foram cumpridos, no passado, Bernardo de Campos, Presidente do Conselho da Administração de “Bauxite Angola” desfraldava a bandeira do dinheiro, dizendo que a sua empresa vai investir mais de quinhentos milhões de dólares nesse setor, e, inclusive, para alavancar a economia do nosso país. 
Vidas passadas, existe ou será apenas uma fantasia?
Será que tenhamos vivido uma outra vida para além desta em que estamos?
Afinal, qual foi ou como foi a nossa vida numa outra vida?
Estaremos nós ligados a alguém devido ao nosso passado?
Reencarnação?  Existe reencarnação? E se existe, significa que voltamos por alguma razão, uma missão por cúmprir ou algo que ficou incompleto?  Qual a razão da existência do ser humano e o seu espirito?

Muitos dizem que não acreditam no Divino, que toda a história biblica é um absurdo, que o homem veio do macaco ou de um mero acaso e que ninguém explica.  Mas a pergunta é:  Pode ser que tudo seja vago, mas o certo, quem foi ou como foi criado este mundo, este planeta, este universo, esta galáxia?  Tem que haver uma explicação, porque Jesus Cristo disse- " Eu sou o caminho, a verdade e a vida..., aqui perante vós me manisfesto e não me creem, quanto mais se vos falar de coisas CELESTIAIS ".  

Existem pessoas túrbulentas, pessoas corajosas, confusentas e polémicas. Mas, as vezes e em muito dos casos, basta uma pequena coisa....., insignificante para que toda essa tempestade que nele vai, se acalme de uma forma estranha e esquisita.

Numa determinada tabanka, existia uma rapariga chamada VÉNUS, de longe e a olho nú, aparentava ser linda, charmósa, algo puro de desejos e amor............, mas só que ninguém sabia que dentro dela, a VÉNUS tinha um poder estónteante de amargura, o ar que ela respirava era capaz de intóxicar a qualquer ser humano ao ponto de o queimar e matar .  A VÉNUS, era e continua sendo uma rapariga chateada, triste, fria, maldósa, sem amor próprio, sem sentimentos, egoísta..., e com todos os seus atributos negativos, ela usa do seu poder de sedução para atraír a qualquer um que opónha a ela.

A VÉNUS sempre foi péssimista, desconfiada, não perdoava, e tinha a capacidade julgar as pessoas sem as dar uma única chance de defesa, condenava e de seguida as matava crúelmente em termos de sentimentos, porque ela jamais teria sentido ou descoberto o verdadeiro significado da palavra AMOR.  

Mas num determinado momento, nessa mesma tabanka, surge do nada, aparece um jovem, destimido, corajoso, frontal, verdadeiro e inteligente chamado SATURNO,

O SATURNO, era um gigante oposto de tudo o que a VÉNUS tinha ou poderia ser.  Ajudava as pessoas daquela pobre tabanka que todos os dias eram atingidos pela maldade e injustiça da VÉNUS.  Pois ela nesse sentido sentiu- se atingida e começou e deu inicio de ataques sem precedentes contra o poderoso e gigante do SATURNO.  

Enquanto a Vénus entrava com gases tóxicos, raios mortíferos e por aí fora, o Saturno apenas lhe procurava mostrar o caminho verdadeiro da vida, do amor e da LUZ.
Mas devido a tanta maldade a sua volta, a Vénus não parava, porque afinal de contas o verdadeiro sentimento da Vénus para com Saturno, viria de muito longe e de anos e milhares de anos luz.

Numa outra vida teriam sido o verdadeiro amor um do outro, as suas vidas estariam ligadas sem eles saberem.
Mas mesmo assim, o único objectivo da Vénus era a vingança contra o gigante do Saturno, ela o queria detónar a todo o custo, queria lhe humilhar a sua maneira e no fim lhe dar o golpe da misericórdia.  A morte e a perda de credibilidade.

Será que a Vénus irá conseguir atingir os seus propósitos?
Só que sem saber, a Vénus esta ajudando ao Saturno a se auto fortalecer- se espiritualmente.

O verdadeiro amor é quem sabe perdôar.
E quem tem amor no coração, protegen cuida e mostra o caminho.

Coisa que falta a Vénus.  




terça-feira, 2 de setembro de 2014

OLA AMIGO DOKA

Confesso-te que fiquei pasmado pelo que te aconteceu, pelo teu recúo em pedir desculpas. Um acto de louvar devido a coragem. Não tem explicação neste mundo. 
Essas atitudes e comportamentos têm nome.  CORAGEM.
Doka é maior e vacinado, responde pelos teus erros. Doka não trabalha sozinho. 
A senhora Adiatu Nandigna está na política e há um proverbio que diz “quem anda a chuva molha-se”. O que eu bem entendi, o Doka Internacional, tem falado de assuntos de grande relevância nacional e de forma patriótica. Sempre nos brindou com texto de grande nível pedagógico e político, ao contrário de muitos larápios e vagabundos que só sabem conspirar contra a unidade do nosso povo. 
Não conheço a senhora em causa, Adiato Nandigna. Alias, conheceria se tivesse desenvolvido alguma obra relevante a bem da nossa comunidade. Ela pode-se queixar, mas não existe dor neste mundo comparado com a de um filho cujo pai não chegou a conhecer por ter sido barbaramente assassinado por lobos circulando na nossa praça com pele de cordeiro. Força, irmão, estamos contigo!   
O teu gesto qualquer das forma, é de louvar e muito poucos o fariam e tu o fizeste.
Ndji Assanam deixou um novo comentário na sua mensagem "Não são todos os dias que isto acontece comigo. E ...": 

Belo gesto, esse! 

Balde Maru

09:05 (há 2 horas)

Bom dia doka
Fico muito contente, de ver um acto louvavel da sua parte, que é pedir desculpas
a senhora aquem se referiu no seu ultimo texto, doravante eu aconselho-te, que pondere muito bem antes de publicar algo que seja da sua autoria, isso nao quer dizer que nós seres humanos somos perfeitos, em agir sempre duma forma acertada.

Esse é um simples conselho de alguem que te quer bem e deseja progresso no teu nosso blog, seria bom que muitos seguisem o seu exemplo.

De salientar, a senhora em questao nao e da minha familia e nunca a vi pessoalmente
se nao publicar melhor, porque e um conselho de um amigo para com amigo.

U Balde

Obs:
Obrigado irmão. Obrigado.
Doka

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Não são todos os dias que isto acontece comigo. E eu Doka, acho que neste sabádo passado algo bateu e entrou na minha vida tipo um relãmpago caído dos céus.

Algo, estranho, algo em que eu me deveria ter irritado, exaltado, cúspindo fogo, sair aos berros, mas pelo contrário, eu fui numa direcção em que nunca estive e jamais saberei explicar a alguém o que foi que na realidade aconteceu.

Por este meio, eu Doka, públicamente, venho pedir desculpas a senhora Adiato Djaló Nandigna por tudo que eu lhe fiz.

Da forma errada e desrespeitôsa em que ao longo deste tempo tenho vindo a expôr a sua imagem, a sua pessoa, a sua dignidade no meu blog.

Reconheço que Adiato Djalò Nandigna, pelo seu histórial e pelo seu passado eu Doka deveria ter demonstrado mais respeito e consideração por ela.  Porque a Senhora Adiato Djaló Nandigna, é uma mulher, e sendo uma mulher deveria como sempre ter merecido respeito por mim, mais ainda, porque tem a idade de ser minha mãe.

Eu errei, reconheço aqui públicamente os meus erros.  Reconheço que falhei em todas as frentes e estou disposto a pagar pelos meus erros.

No dia em fôr a Bissau, eu Doka, procurarei pessoalmente a esta senhora e me ajoelharei perante a ela e dizer:   PURDAN.

Para a mim Doka, todos os seres humanos estão sujeitos a erros, mas o verdadeiro ser humano, é aquele que reconhece os seus erros, e procura tê- las como base a fim de corrigir o futuro.

Errei a esta mulher, errei a minha mãe.
As minhas sinceras desculpas.

Se eu Doka sou critico ao PAIGC por terem fuzilado ao meu pai, e sempre disse que bastava uma palavra amiga de consolo para que toda a raiva passasse, porque razão não haveria eu de reconhecer os meus erros para com Adiato Djaló Nandigna.
Mais vale tarde do que Nunca.
Desculpa, hoje mais do que nunca procurarei fazer o melhor em relação a si.